Marketing Territorial em primeiro lugar: alinhar estratégia com identidade

Nos últimos anos, o debate sobre o futuro das cidades e regiões ganhou um novo fôlego. À medida que os territórios enfrentam pressões crescentes — desde a concorrência global por talento e investimento, até ao crescente descontentamento das populações locais — torna-se evidente a necessidade de repensar as estratégias de desenvolvimento. Neste contexto, o marketing territorial surge como uma abordagem fundamental para o planeamento estratégico, permitindo alinhar os interesses de promoção externa com as reais necessidades internas de um território.

Durante a última década, assistimos à proliferação de estratégias orientadas para a captação de investimento estrangeiro, muitas vezes sustentadas em políticas de atratividade fiscal, programas como os vistos gold ou campanhas de promoção turística. Esta lógica, por vezes demasiado centrada na imagem projetada e nos fluxos financeiros externos, negligenciou um fator essencial: o bem-estar e a satisfação dos atores locais. Empresas, associações, instituições públicas e, sobretudo, os cidadãos foram frequentemente relegados para segundo plano.

Hoje, o cenário é distinto. A pressão do turismo sobre os centros urbanos, a subida dos preços da habitação, a escassez de oportunidades de emprego qualificado e a degradação dos serviços públicos tornaram-se questões centrais. O cidadão comum sente-se excluído do desenvolvimento do seu território, observando que a sua cidade é, muitas vezes, pensada para quem a visita e não para quem nela vive.

Neste novo contexto, o marketing territorial não pode ser confundido com simples promoção. Deve ser entendido como uma ferramenta de planeamento estratégico com capacidade para integrar visões, mobilizar recursos e articular políticas públicas com iniciativas privadas. Trata-se de um processo que começa de dentro para fora — escutando os atores locais, avaliando as potencialidades endógenas e desenhando propostas sustentáveis que reforcem a identidade, a coesão e a competitividade territorial.

Planeamento estratégico à luz do marketing territorial significa, por isso, perguntar primeiro: quem são os nossos principais públicos internos? Que necessidades têm? Que imagem têm do território onde vivem? Só depois se pode projetar uma narrativa coerente para o exterior, fundamentada na autenticidade e na qualidade de vida que se oferece a quem aqui reside, trabalha e investe.

Exemplos positivos começam a emergir. Regiões que apostam na reabilitação urbana com inclusão social, que valorizam o comércio local e os circuitos curtos de produção, que criam condições para a fixação de jovens qualificados e que adotam ferramentas digitais para melhorar o diálogo com os cidadãos estão a construir marcas territoriais mais robustas, credíveis e humanas.

É tempo, pois, de deixar para trás a lógica da “atração a qualquer custo” e passar para uma abordagem mais madura, participativa e estratégica. Cidades e regiões que ignorarem esta mudança continuarão a promover-se para o exterior enquanto se fragmentam por dentro. As que assumirem o marketing territorial como parte integrante do seu planeamento estratégico estarão mais bem preparadas para enfrentar os desafios do futuro — com os seus cidadãos como principais aliados.

Nota: imagem decorativa do artigo, uma pintura minha em acrílico de uma das cidades mais bonitas do mundo e património da humanidade: Angra do Heroísmo nos Açores, Portugal

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Sérgio Marques, especialista em Design Gráfico, Branding e Marketing Territorial

Sérgio Marques

Sérgio Marques possui mestrado em Gestão do Território e Urbanismo pela Universidade de Lisboa (IGOT), com uma dissertação na área de Marketing Territorial. Ao longo da sua carreira, adquiriu uma vasta experiência no desenvolvimento de projetos nas áreas de consultoria de marketing e design gráfico, tanto no setor privado como na administração pública. Trabalhou com o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto), o IGAC (Inspeção Geral das Atividades Culturais) e desenvolveu o emblema e identidade visual do CD Santa Clara dos Açores, além de ter colaborado com o Centro Nacional de Cultura. A sua abordagem estratégica alia criatividade e funcionalidade, refletindo-se em identidades visuais, campanhas de marketing e soluções de design que contribuem para a promoção e valorização de territórios e marcas. Além da sua experiência em marketing e design, Sérgio também é artista plástico, tendo participado em diversas exposições e bienais, e possui o curso de pintura nível III da Sociedade Nacional de Belas Artes. A sua paixão pelo design e pelas artes é uma extensão natural da sua visão, procurando sempre criar peças que unam estética e propósito.