Onde o design encontra o território: a minha experiência no Festival CHEAP em Bologna

Participar no CHEAP Street Poster Art Festival, em Bologna, não foi apenas integrar uma exposição internacional. Foi viver, enquanto designer, um exemplo concreto de como a cultura pode ser uma ferramenta poderosa de marketing territorial.

Enquanto criador visual, estou habituado a pensar identidade, narrativa e posicionamento. No CHEAP, senti isso aplicado à escala urbana. A cidade deixa de ser pano de fundo e passa a ser suporte. Os muros tornam-se media. A circulação quotidiana transforma-se em experiência cultural. E essa transformação constrói reputação, diferenciação e memória coletiva.

Nesta edição, dedicada a David Lynch, apresentei um trabalho que cruza cartografia e imaginário cinematográfico. A leitura do território através do desenho acompanha-me desde a formação em urbanismo até ao trabalho em design de identidades visuais. Levar esta abordagem para um festival internacional, como designer português, entre mais de 400 propostas, e ver o trabalho selecionado entre 77, teve um significado especial.

Mais do que a seleção, interessa-me o modelo. O CHEAP mostra que o marketing territorial não se faz apenas com campanhas institucionais. Faz-se criando contexto para que a criatividade aconteça. Faz-se dando espaço a autores independentes. Faz-se permitindo que a cidade seja apropriada artisticamente.

Enquanto profissional que trabalha entre o design e o marketing territorial, foi impossível não olhar para Bologna como um verdadeiro caso de estudo. A consistência do festival, a curadoria, a dimensão internacional e a ocupação do espaço público constroem uma narrativa sólida. Esta é uma cidade que valoriza pensamento crítico, cultura contemporânea e liberdade criativa.

Há também uma dimensão pessoal inevitável. Bologna foi a primeira cidade que conheci em Itália, antes de viver em Siena em 2008. Regressar agora como participante num festival internacional fecha um ciclo simbólico. O território molda-nos, mas também devolvemos algo ao território quando nele intervimos criativamente.

Participar como designer neste contexto reforçou uma convicção que tenho há anos. A identidade de um lugar não se impõe. Constrói-se com visão, com cultura e com coragem de abrir a cidade ao mundo.

É exatamente nessa intersecção entre estratégia, território e expressão visual que gosto de trabalhar.

Poster design por Sérgio Marques, festival CHEAP
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Sérgio Marques, especialista em Design Gráfico, Branding e Marketing Territorial

Sérgio Marques

Sérgio Marques possui mestrado em Gestão do Território e Urbanismo pela Universidade de Lisboa (IGOT), com uma dissertação na área de Marketing Territorial. Ao longo da sua carreira, adquiriu uma vasta experiência no desenvolvimento de projetos nas áreas de consultoria de marketing e design gráfico, tanto no setor privado como na administração pública. Trabalhou com o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto), o IGAC (Inspeção Geral das Atividades Culturais) e desenvolveu o emblema e identidade visual do CD Santa Clara dos Açores, além de ter colaborado com o Centro Nacional de Cultura. A sua abordagem estratégica alia criatividade e funcionalidade, refletindo-se em identidades visuais, campanhas de marketing e soluções de design que contribuem para a promoção e valorização de territórios e marcas. Além da sua experiência em marketing e design, Sérgio também é artista plástico, tendo participado em diversas exposições e bienais, e possui o curso de pintura nível III da Sociedade Nacional de Belas Artes. A sua paixão pelo design e pelas artes é uma extensão natural da sua visão, procurando sempre criar peças que unam estética e propósito.