Rabo de Peixe: quando uma série muda a perceção de um lugar

O poder de uma história autêntica que transformou um nome estigmatizado num símbolo de identidade e orgulho açoriano.
O que era estigma passou a ser identidade. O que era silêncio transformou-se em voz. E o que era periferia tornou-se centro. De repente, com a serie da Netflix de Augosto Fraga , o mundo inteiro procurou Rabo de Peixe no Google. Descobriu que existe mesmo. Que tem mar, fé, gente trabalhadora e uma paisagem arrebatadora. Descobriu que há ali verdade. E essa verdade é, no fundo, a essência do marketing territorial involuntário – quando uma narrativa autêntica, sem plano estratégico prévio, acaba por projetar um território e redefinir o seu significado no imaginário coletivo.

A série de Augusto Fraga constrói uma narrativa cinematográfica poderosa, que não disfarça os problemas sociais, mas os transforma em contexto. Em vez de julgar, compreende. Em vez de esconder, ilumina.

O resultado é uma história que mistura ficção e realidade, mar e humanidade, com um impacto profundo na forma como o território é visto – dentro e fora dos Açores.

A Netflix, com o seu alcance global, fez de Rabo de Peixe uma marca. Uma marca autêntica, inesperada e emocional.


A importância da narrativa

O que esta série mostra é que a identidade de um lugar não se constrói só com slogans e logotipos, mas com histórias.
Rabo de Peixe ganhou uma narrativa capaz de gerar empatia, curiosidade e respeito. A vila passou de “caso social” a “símbolo cultural”.

O público internacional descobriu que, por trás do nome, há pessoas reais, tradições, fé, trabalho e uma ligação ao mar que define uma forma de estar.

Este fenómeno revela o poder do audiovisual como instrumento de branding territorial involuntário – uma estratégia que nasce da arte, mas que gera efeitos reais de valorização económica, social e simbólica.


Mais-valias e riscos

O sucesso da série abre oportunidades evidentes:

  • mais visitantes interessados em conhecer o território
  • valorização da economia local e dos produtos regionais
  • reforço do orgulho comunitário e do sentimento de pertença
  • novas oportunidades para artistas, empreendedores e jovens locais

Mas também levanta desafios:

  • o risco do turismo de curiosidade, baseado apenas no fenómeno mediático
  • a simplificação da realidade local
  • a apropriação externa da narrativa

Cabe agora às entidades locais – autarquia, associações e comunidade – transformar esta notoriedade em algo sustentável.


O caso de Rabo de Peixe mostra que um obra cinematográfica pode ser uma das formas mais eficazes de marketing territorial involuntário.

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Sérgio Marques, especialista em Design Gráfico, Branding e Marketing Territorial

Sérgio Marques

Sérgio Marques possui mestrado em Gestão do Território e Urbanismo pela Universidade de Lisboa (IGOT), com uma dissertação na área de Marketing Territorial. Ao longo da sua carreira, adquiriu uma vasta experiência no desenvolvimento de projetos nas áreas de consultoria de marketing e design gráfico, tanto no setor privado como na administração pública. Trabalhou com o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto), o IGAC (Inspeção Geral das Atividades Culturais) e desenvolveu o emblema e identidade visual do CD Santa Clara dos Açores, além de ter colaborado com o Centro Nacional de Cultura. A sua abordagem estratégica alia criatividade e funcionalidade, refletindo-se em identidades visuais, campanhas de marketing e soluções de design que contribuem para a promoção e valorização de territórios e marcas. Além da sua experiência em marketing e design, Sérgio também é artista plástico, tendo participado em diversas exposições e bienais, e possui o curso de pintura nível III da Sociedade Nacional de Belas Artes. A sua paixão pelo design e pelas artes é uma extensão natural da sua visão, procurando sempre criar peças que unam estética e propósito.