Valorização Territorial em Desigualdade: O Paradoxo do Santa Clara

O presente artigo pretende contribuir de forma construtiva para o debate em torno do papel do futebol profissional enquanto instrumento de valorização territorial nos Açores, com especial enfoque no Clube Desportivo Santa Clara. Num contexto de crescente competitividade entre territórios, marcado pela necessidade de afirmação externa, captação de investimento e consolidação reputacional, o Santa Clara representa um dos mais relevantes ativos simbólicos, mediáticos e identitários da Região Autónoma dos Açores.

Ao longo dos últimos anos, a administração do clube tem demonstrado uma notável capacidade de gestão, resiliência e profissionalismo, conseguindo manter o Santa Clara competitivo em contextos particularmente exigentes, caracterizados pela insularidade, pelos elevados custos logísticos e por uma base de mercado limitada. Este percurso evidencia que o projeto desportivo do clube assenta em fundamentos sólidos, responsáveis e orientados para a sustentabilidade (subida à primeira divisão em 2024, 5º lugar e competições europeias em 2025, sucesso nas varias camadas jovens e criação do centro de estágios na Ribeira Grande).
Paralelamente, importa reconhecer o esforço continuado do Governo Regional dos Açores na promoção
externa da região e no apoio às entidades que contribuem para a sua projeção. O enquadramento
institucional do Santa Clara através da marca “Açores” constitui um sinal claro de reconhecimento do seu valor enquanto embaixador regional. Trata-se de uma política pública relevante, que importa preservar e reforçar.
Contudo, a análise comparativa com outros territórios insulares europeus evidencia uma discrepância
significativa no nível de investimento estratégico associado ao futebol profissional. Nas Ilhas Canárias, os
principais clubes recebem cerca de 2,1 milhões de euros anuais no âmbito de contratos de promoção
territorial. Na Região Autónoma da Madeira, os apoios situam-se entre 1,2 milhões (Maritimo, segunda divisão) e 2,3 milhões (Nacional da Madeira/primeira divisão) de euros por época.
Estes valores refletem uma visão estruturada do desporto como instrumento de posicionamento regional.
Nos Açores, o apoio ao Santa Clara tem rondado, nos últimos anos, aproximadamente 1 milhão de euros
anuais, verificando-se, na presente época, a intenção de reduzir esse montante para um valor inferior. Esta
evolução suscita legítimas preocupações, não por uma lógica reivindicativa, mas por uma perspetiva
estratégica de médio e longo prazo.
A redução do apoio financeiro ao principal representante desportivo da região no plano nacional poderá
comprometer a estabilidade do projeto, limitar a capacidade competitiva do clube e enfraquecer a sua função enquanto plataforma de promoção territorial. Importa sublinhar que, em territórios ultraperiféricos, os efeitos de tais decisões tendem a ser amplificados, dada a menor margem de manobra estrutural existente.
A minha experiência prática, como autor, no desenvolvimento da identidade visual do Santa Clara demonstrou que o clube possui um enorme potencial de valorização simbólica. A integração das nove ilhas, a onda do Atlântico e da herança histórica no emblema reforçou a ligação entre clube, território e comunidade. Este processo evidenciou que o investimento em branding e comunicação gera retorno reputacional direto, desde que enquadrado numa estratégia consistente.
O desafio atual não reside apenas na dimensão financeira do apoio, mas sobretudo na necessidade de
aprofundar uma abordagem integrada entre clube, governo regional e entidades de promoção. O Santa
Clara deve ser encarado como parceiro estratégico da política territorial, participando ativamente na
construção da narrativa dos Açores enquanto território moderno, resiliente e competitivo.
Neste contexto, o reforço do apoio institucional não deve ser entendido como um subsídio, mas como um
investimento estruturante com retorno mensurável em notoriedade, reputação e posicionamento externo.
Trata-se de uma lógica já consolidada noutros territórios insulares, onde o futebol é integrado nas estratégias de desenvolvimento regional.
A Direção da SAD tem demonstrado capacidade para transformar recursos limitados em resultados
relevantes, o que reforça a legitimidade de uma aposta institucional mais ambiciosa. Um enquadramento
financeiro mais robusto permitiria consolidar projetos de médio prazo, reforçar a formação, melhorar
infraestruturas e potenciar ainda mais as marcas Santa Clara e Açores.
Do ponto de vista do Governo Regional, uma política de valorização consistente do clube reforçaria a
credibilidade da estratégia de promoção externa dos Açores, demonstrando visão, estabilidade e
compromisso com os seus principais activos territoriais. Esta opção teria impacto positivo na perceção externa da região junto de investidores, operadores turísticos e parceiros institucionais.
Em conclusão, o CD Santa Clara constitui um património desportivo, simbólico e territorial dos Açores. A sua
valorização adequada representa uma oportunidade estratégica para a Região Autónoma, para a sua
projeção internacional e para o reforço da sua identidade. O momento atual deve ser encarado como uma
oportunidade de aprofundar a cooperação institucional, reforçar a ambição coletiva e consolidar uma visão partilhada de desenvolvimento regional sustentado.
Investir no Santa Clara é investir na marca Açores. É investir na sua reputação, na sua competitividade e na sua capacidade de afirmar-se num contexto cada vez mais exigente. Trata-se, acima de tudo, de uma
decisão estratégica com impacto duradouro no futuro da região.

Fontes de Referência sobre Financiamento Regional
Canárias – 2Playbook: https://www.2playbook.com/clubes/canarias-inyecta-20-millones-via-patrocinio-clubes -laliga-liga-acb-hasta-2025_12344_102.html


Madeira – JORAM:
https://joram.madeira.gov.pt/joram/1serie/Ano%20de%202025/ISerie-204-2025-11-18sup.pdf

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Sérgio Marques, especialista em Design Gráfico, Branding e Marketing Territorial

Sérgio Marques

Sérgio Marques possui mestrado em Gestão do Território e Urbanismo pela Universidade de Lisboa (IGOT), com uma dissertação na área de Marketing Territorial. Ao longo da sua carreira, adquiriu uma vasta experiência no desenvolvimento de projetos nas áreas de consultoria de marketing e design gráfico, tanto no setor privado como na administração pública. Trabalhou com o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto), o IGAC (Inspeção Geral das Atividades Culturais) e desenvolveu o emblema e identidade visual do CD Santa Clara dos Açores, além de ter colaborado com o Centro Nacional de Cultura. A sua abordagem estratégica alia criatividade e funcionalidade, refletindo-se em identidades visuais, campanhas de marketing e soluções de design que contribuem para a promoção e valorização de territórios e marcas. Além da sua experiência em marketing e design, Sérgio também é artista plástico, tendo participado em diversas exposições e bienais, e possui o curso de pintura nível III da Sociedade Nacional de Belas Artes. A sua paixão pelo design e pelas artes é uma extensão natural da sua visão, procurando sempre criar peças que unam estética e propósito.